Aí não dá né? Criança autista é ‘barrada’ em parque

Fonte: O Regional

Um dia triste. É assim que Alessandra Camargo Ferraz resume o seu último domingo. A advogada e diretora jurídica da ONG Autismo e Realidade foi com sua família até o parque Hopi Hari, em Vinhedo-SP e conviveu com uma situação constrangedora.

Com ela também estava seu filho, de dez anos, que é autista, mas sempre freqüentou aquele parque sem problemas.

Em entrevista ao jornal O Regional, ela conta que o filho estava com a irmã mais velha em uma fila para um brinquedo de criança, ou seja, ele atendia todos os requisitos para utilizá-lo.

“Meu filho não tem deficiência alguma, aparentemente. Ele tem uma dificuldade de comunicação, mas que ninguém percebe se não engajar uma conversa com ele”.

Ela explica que a família sempre freqüentou o Hopi Hari. “Meu filho estava na fila, quietinho, e uma outra pessoa tentou conversar com ele, aí minha filha explicou que ele é autista e por isso não estava respondendo. Aí a moça que estava operando o brinquedo escutou e solicitou uma cartinha do SAV (Serviço de Atendimento ao Visitante) e ainda disse que ele não poderia entrar no brinquedo sem essa cartinha”.

Alessandra afirma que procurou saber o que estava acontecendo e foi comunicada que o filho deveria ter essa autorização para utilizar os brinquedos. “Eu ainda falei que talvez eles teriam entendido errado, porque meu filho é autista e não tem dificuldade física nenhuma, a dificuldade dele é de comunicação e neste caso específico eu não precisava de auxílio. Mesmo assim, não deixaram ele ir e várias crianças foram entrando na frente e ele ficava olhando com um ar de questionamento para mim”.

Ressalta que a família nunca havia passado por uma situação dessas. “Nesse caso, o superior veio até nós e insistiu na história, afirmando que só poderia utilizar os brinquedos do parque se eu fizesse um crachá e identificasse como diferente, mas eu não queria isso, estávamos passeando em família. Só queria que ele brincasse normalmente como outras crianças”.

Depois de muito argumentar, acabaram liberando a entrada do garoto para o brinquedo, mas teriam informado Alessandra que depois ela deveria fazer a credencial para o SAV e ela não aceitou. “Ele não tem problema físico e não pode sofrer essa discriminação. Mas depois pedimos o dinheiro de volta e fomos embora. Meu filho faz tratamento na Flórida e vamos aos parques de lá, nunca passei por isso na vida. De fato, a Disney dá um cartão com uma série  de comodidades, mas de forma alguma vinculam a entrada da criança a você fazer isso”.

Quanto a política adotada pelo parque, ela afirma que é completamente discriminatória. “Estou em contato com o Ministério Público, vou registrar um boletim de ocorrência, vou apresentar como ilícito penal e o MP dará continuidade. Na parte cível, vou entrar com perdas e danos morais, porque fomos os mais afetados nesse episódio”.

Em relação à conscientização das pessoas, ela afirma se otimista e acredita que tudo está melhor. “Falta conscientização e temos obrigação de levar essa mensagem. Temos uma base de legislação mais forte. Vemos as mães contra os problemas de inclusão na escola, discriminação e preconceito, mas ainda está tudo muito embrionário. Eu sou otimista, mas ainda tem muito a melhorar, tanto no Brasil quanto no mundo”.

OUTRO LADO

A reportagem de O Regional questionou o parque quanto à situação enfrentada pela família.

Em nota, o parque  afirma que a acessibilidade de suas atrações é uma preocupação constante do Hopi Hari. Desde sua implantação, em 1999, o Hopi Hari sempre se importou em oferecer infraestrutura aos visitantes com necessidades especiais. Deste modo foi criado o Programa Código Azul, que visa oferecer diversão com segurança para pessoas com deficiência permanente ou temporária e foi desenvolvido com base em orientação de médicos especialistas, fabricantes de atrações e associações de pessoas com necessidades especiais. O Programa Código Azul também é válido para gestantes, idosos e pessoas com fraturas, como por exemplo, um braço quebrado.

Hopi Hari oferece diversas atrações entre equipamentos, shows e espetáculos. Existem mapas de todas as atrações, que são distribuídos em vários pontos do parque. É exatamente nesta sinalização que existe a ressalva de que pessoas com necessidades especiais devem dirigir-se ao SAV (Serviço de Atendimento ao Visitante) para receber seu mapa de orientações de segurança para utilização das atrações, elaborado para cada visitante com alguma deficiência, seja ela permanente ou temporária, de acordo com as particularidades de cada necessidade especial e/ou enfermidade. A partir deste mapa, o visitante pode aproveitar o seu dia no parque, desfrutando de alegria e diversão e otimizando o seu tempo.

O Parque Hopi Hari segue as instruções dos fabricantes das atrações e as normas de ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), que regulamenta os parques de diversões. De acordo com esta norma e para proteger seus usuários devem-se orientá-los com uma série de recomendações e condições para utilização das atrações. Na data da visita, se o visitante tivesse passado pela avaliação do Código Azul, dentre as atrações em operação e de acordo com a altura dele, ele apenas não poderia ir em uma atração (Trukes di Pinguim). O caso em questão, no entanto, foi solucionado no próprio Serviço de Atendimento do parque. Ao informar no SAV de que não mais queria permanecer no parque, a Sra. Alessandra Camargo teve o reembolso do valor de todos os passaportes adquiridos.

Hopi Hari reitera, no entanto, que sabe da importância de seu engajamento social bem como da dimensão que o correto emprego de instalações adequadas e profissionais aptos a receber pessoas especiais. Assim, nunca deixou que em seu recinto qualquer medida que assegurasse o correto desempenho desta obrigação fosse deixada de lado, bem como cuidou, a todo tempo, de disponibilizar informações ao longo de todo o parque no que concernem as diversas atrações que são devidamente adaptadas para receberem pessoas com alguma deficiência.