Que massa, game para cegos é alternativa

Baita criatividade….

Em 2011, durante uma aula de desenvolvimento de software no Senai-DF, nas proximidades do governo brasileiro, o professor Bruno Kenj se deparou com a indignação demonstrada por um de seus mais aplicados alunos, Juliano César Ribeiro, analista de teste de software e deficiente visual: ele queria jogar videogames de igual para igual com os amigos.

“Nunca foi possível compartilhar a emoção de jogar um jogo pensado para os deficientes, devido à falta de projetos específicos no mercado, que possa atender a demanda de deficientes visuais e outras deficiências. As grandes empresas de jogos não se preocupam com esse público”, comenta o aluno, que nasceu em Goiânia, prematuro (seis meses de idade) e é cego por causa de um erro médico.

Juliano, 31, sempre teve dificuldades com os jogos. Ele conta que, na infância, tentava jogar os games de aventura, mas era praticamente impossível. Com sua intuição e com os dedos frenéticos, ele sempre foi ‘feroz’ nos jogos de luta. No entanto, jogava ao acaso. “As pessoas não acreditavam na minha capacidade e alguns até duvidavam que eu fosse cego”, relata.

Bruno Kenj, hoje com 29 anos, já tinha em mente criar games no Brasil e com isso participar do concurso Imagine Cup, promovido pela matriz da Microsoft, nos Estados Unidos. O Herocopter é um game de aventura, em que o jogador torna-se o piloto de um helicóptero de resgate. E o salvamento? É dedicado à sobreviventes de catástrofes. A ideia em si já era inovadora, porém, ainda faltava algum diferencial para o jogo. E com a ideia de Juliano, a peça final para o game se encaixou.

“A gente tinha um sonho de desenvolver jogos no Brasil, pois o mercado ainda é reduzido e sabemos que é possível. Iríamos desenvolver de qualquer jeito. Mas surgiu o Juliano com a dica. Ele queria muito jogar porque gostou do projeto do game de helicóptero. A partir daí, ele participou de todas as etapas de criação, principalmente com os testes. Encaramos o desafio e ficamos impressionados com o desempenho dele”, ilustra Kenj.

AS PARCERIAS

Ao notar a necessidade de expansão do projeto, em fevereiro de 2012, o inventor firmou parceria com a iDvelop, empresa que investe em desenvolvimento de programas e aplicativos inovadores, liderada por Bruno Sousa e Ednaldo Sousa. “Fomos chamados até a casa do Kenj, vimos o projeto e assumimos a inovação“, detalha Bruno Sousa (embora tenha o mesmo sobrenome, enfatiza não serem irmãos).

A ideia de fazer um game acessível para qualquer pessoa também precisava de outro fator ligado ao modo de jogar. Com a equipe formada, eles firmaram parceria com a Xbox da Microsoft, por meio do console Kinect (um sensor de movimentos que permite aos jogadores interagir com os jogos eletrônicos sem a necessidade de ter em mãos um controle).

No caso do Herocopter, o helicóptero reage aos movimentos do piloto. “Passamos por análise da Microsoft, aqui no Brasil e conseguimos o aval da empresa. Não é qualquer um que consegue inserir um jogo na Xbox. Atualmente, estamos recebendo o apoio da Microsoft, por meio de instruções, para adequarmos o Herocopter aos padrões deles”, ressalta Bruno Sousa.

Os inventores do jogo ainda destacam que com o diferencial do Kinect, os jogadores também são estimulados fisicamente a partir da coordenação motora, uma vez que os jogadores fazem exercícios por meio de seus movimentos.

“O próprio Kinect não permitia a interação entre as pessoas. Não sabíamos o que acontecia porque não enxergamos. Mas o nosso jogo quebra essas barreiras para os cegos que agora podem jogar em pé de igualdade. Até abdominais, nós fazemos”, brinca Juliano.

AUDIOGAMES

Até então, o mercado de jogos para deficientes visuais não é novidade. Existem os audiogames (jogos sem imagens, praticados exclusivamente por pessoas com deficiência visual). Nos audiogames, o que acontece no jogo é repassado para o praticamente por meio de saídas de som, geralmente por fones de ouvido.
As pessoas portadoras de deficiência visual navegam pela Internet, utilizando um programa de leitura de tela. Os audiogames funcionam da mesma forma. Este tipo de programa passa um leitor de textos e imagens que sintetizam em fala humana. Basicamente, o programa lê para a pessoa o que está na tela.

Entretanto, os audiogames são básicos e quem está de fora não compartilha o que se passa no jogo. “Não tem emoção, não tem aventura. O deficiente, ou qualquer pessoa, pode jogar normalmente. Mas quem joga, joga pra si, porque quase ninguém evidencia o que está acontecendo”, revela Juliano.

ADRENALINA

O que ainda falta para o mercado de jogos adaptados é a sensação interativa e a adrenalina. Como o objetivo do jogo é salvar vidas em meio a catástrofes, eventos cataclísmicos (maremotos, terremotos, entre outros) acontecem com frequência. Se o piloto não cumprir a fase, até mesmo ele pode ser envolvido.
No caso desse jogo, a promessa é oferecer a emoção e a adrenalina com o áudio 3D. Para dar essa eficiência, todos os prédios foram adaptados com sons, para informar ao deficiente visual a distância exata entre a hélice e o prédio. “No início tive dificuldades com os menus. Mas com logo me adaptei. É muito emocionante ouvir o barulho do tsunami se aproximando. Se não tiver cuidado, o helicóptero é envolvido”, conta Juliano. Toda a equipe participou da gravação das vozes, inclusive entre os pedidos de socorro.

MERCADO

Inicialmente, a venda do jogo terá lançamento mundial, por meio de downloads na internet. A promessa é lançar o Herocopter nos próximos meses. No entanto, para fazer o lançamento, a Xbox/Microsoft exige que a empresa tenha uma filial nos Estados Unidos. Por isso, dentro de três meses, a iDevelop terá um sede no Vale do Silício, na Califórnia. O preço do aplicativo não deve passar de US$ 4,99 (cerca de R$ 10,00).

No mundo, segundo cálculos da Organização Mundial da Saúde, a estimativa é de que existam 280 milhões de pessoas, portadoras de deficiência visual. Desse total, 39 milhões são completamente cegos. No Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/Censo 2010), 6,5 milhões pessoas têm deficiência visual. Deste total, 582 mil possuem cegueira. O número representa 3,5% dos brasileiros (é a deficiência com maior incidência do país).

Os inventores calculam que se conseguirem atingir 1% dessa demanda já terão sucesso. Mas ainda reclamam da falta de investidores. “O próprio governo não dá muita atenção. Seria interessante incentivar crianças nas escolas a interagirem com quem tem deficiências”, idealiza Bruno Sousa.

“Temos relatos de muitas pessoas com deficiência visual que insistiam em jogar os convencionais, porque viam os outros se divertindo, mas não dava certo e ficavam perdidos. Uma criança que nasce com deficiência visual leva três a quatro anos a mais para desenvolver a coordenação motora. Viemos para quebrar barreiras sociais, colocando os deficientes para jogar com os normais”, exalta Bruno Kenj.

“A indústria não se importa com nenhum tipo de deficiência. Mas todos têm direito de se divertirem. Nós também. Mas ainda enfrentamos dificuldades, principalmente em relação à web. Mas acredito que as indústrias ainda vão abrir os olhos para as pessoas com deficiência”.

fonte – http://www.dm.com.br/texto/95746-videogame-para-cegos