Especial: ahe! visita a Líbia em homenagem às pessoas com deficiência

Ao derrubar obstáculos erguidos pelas diferenças, encontra-se um possível caminho para chegar à sociedade igualitária. Para aquelas em reconstrução, a inserção de diversos grupos funciona como condição para evolução. Provavelmente por isso, na Líbia pós-revolução, o Dia Internacional de Pessoas com Deficiência, proposto por um líbio – Monsour Al-Kikha – e criado há 20 anos pela Assembléia Geral da ONU, tenha um peso maior.
– Nós celebramos a data, mas não esquecemos o dia seguinte. Nós temos que ver mudanças em áreas públicas. Quando eu deixo a minha casa, eu tenho que pensar nos desafios que encontrarei pelas ruas e em prédios que foram construídos sem considerar as pessoas com deficiência. Depois de um dia como hoje, eu espero encontrar mudanças e ver que os deficientes físicos são bem-vindos em seu próprio país – disse em entrevista exclusiva ao ahe!, Abdusalam Shlebak, responsável pelo departamento de Mídias Sociais do Comitê Paralímpico Líbio, destacando que a comemoração continua: em 13 de dezembro é celebrado o Dia Árabe de Pessoas com Deficiência.
Absi, como carinhosamente é chamado, vive com sequelas de poliomielite, em Trípoli, capital de um país que mostra evidentes sinais de recuperação, de interesse e de curiosidade pelo mundo. As pessoas parecem estar atentas a ouvir o som da democracia e repetem que a Líbia  é um lugar de mentes criativas na música, nas artes, no esporte. Segundo os líbios, esses personagens foram tolidos por conta de um regime autoritário, que tinha Gaddafi como o centro das atenções. Um dos muitos calados pelo regime foi Monsour Al-Kikha, mentor do Dia Internacional de Pessoas com Deficiência. Os restos mortais dele foram encontrados após 19 anos desaparecido.

Pessoas com deficiência representam 15% da população

Homenageados durante o Dia internacional de Pessoas com Deficiência - Foto: Comitê Paralímpico Líbio

Segundo a Organização das Nações Unidas, mais de 1 bilhão de pessoas (cerca de 15% da população mundial) vivem com deficiência física.O Dia Internacional de Pessoas com  Deficiência, neste ano, foi celebrado com o tema “removendo barreiras para a inclusão de todos na sociedade”, cujo objetivo é o de estimular em todo o mundo a discussão acerca das condições em que vivem as pessoas com deficiência. Em ano de JogosParalímpicos, há a comprovação e o reconhecimento dos heróis do esporte que se tornam exemplos não apenas para os esportistas.

Somente na Líbia, localizada no norte da África, o governo acredita que há aproximadamente 65.000 pessoas vivendo com deficiência física, em uma população de cerca de 7 milhões de habitantes. Após a revolução que derrubou e matou o ex-ditador Muamar al-Gaddafi, em 20 de outubro de 2011, o número de pessoas com deficiência sofreu um triste acréscimo. Organizações fazem uma previsão de cerca de 15 mil líbios que ficaram com sequelas físicas durante o embatecontra as milícias pró-Gaddafi, que reuniram simpatizantes vindos de países como a China, Rússia, Nigéria e Niger.
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Em Trípoli desde agosto deste ano, o trabalho do embaixador brasileiro Afonso Álvaro Carbonar parece incansável. O otimismo o dirige a um caminho de descoberta e de ação permanente que usa o Brasil como exemplo em aspectos econômicos e de justiça social. Parte do dia dele é concentrada em conversar e descobrir as necessidades da população.

– Deveríamos promover mais dias como esse na Líbia. É um dia muito especial, e neste país essa data assume um vulto ainda maior. Há muitas pessoas que ficaram feridas durante a revolução. Isso é um estímulo moral muito grande, uma forma de o Estado potencializar a autoconfiança. O Brasil apoia de forma muito clara iniciativas como essa – afirmou, em entrevista ao ahe!,  o embaixador brasileiro, que esteve ao lado do presidente líbio durante a celebração.

A liberdade que emerge como consequência da democracia (em julho, a Líbia teve a sua primeira eleição presidencial em 40 anos) estimula os campos das artes, da música e, principalmente, doesporte, que encoraja aqueles que veem no antigo hobby o mote do presente e a chave para o futuro.

Gazhala durante treinamento em Tripoli - Comitê Paralímpico Líbio

– Eu aprendi esportes porque era um hobby. Eu me sentia feliz praticando o levantamento de peso. Agora, ele faz parte de minha vida, e eu não consigo mais viver sem ele – comentou a atleta Gazhala, que começou a vida esportiva em 1994, quando recebeu a medalha de prata e bronze no Torneio de Países Árabes, realizado no Egito. Depois disso, a Líbia participou de diversas competições internacionais, com medalhas conquistadas em países como Nigéria e Marrocos. Neste ano, ela ficou em 7º lugar no Mundial realizado em Dubai.

Abdulrazag Baaba, um dos premiados por sua participação na Paralimpíada de Londres, sempre viu o esporte como algo a mais, acima, à frente de um entretenimento. O hobby dele era a arte, enquanto sua paixão era mesmo a velocidade. Quando crianca, ele concentrava a sua energia no hipismo, até a próxima descoberta. Como ele costuma dizer, foi o “homem dos esportes”, seu pai, que o ensinou como abraçar esse novo mundo.
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– Meu pai me incentivou a fazer levantamento de peso, e desde que eu conheci grandes técnicos,como Mohammed Makhlouf e Abdul Raheem Zawai, eu me concentrei em ser um bom atleta. Em 2004, registrei-me como esportista paralímpico nacional e representei a Libia em muitas ocasiõesfora do país – conta ao ahe! o atleta que competiu na categoria 82 quilos e alcançou o 12º lugar em Londres 2012.

Saldo Positivo

Segundo a ONU, deficiência física significa que alguma parte do organismo não apresenta um funcionamento perfeito, mas a condição não é definida como anormal. Durante a cerimônia que marcou o inicio da seqüência de celebrações, o compromisso do Ministério do Esporte em construir 13 novos estádios para a prática esportiva e paradesportiva foi reafirmado. Nos próximos anos, se cumprida, a promessa terá potencial para lapidar e expor ao mundo novos heróis do esporte da nova nação formada ao norte da África.

Ruas de Trípoli - Natalia da Luz

– O ministro dos Esportes fez o anúncio, mas o plano está ainda no papel. Os homens e mulheres do futuro precisam de mais patrocínio e apoio do Comitê Paralímpico para prepará-los para competições futuras – completou Absi.

Para o técnico Abdul Raheem, a expectativa é de que a proposta vá em frente para que líbios com quaisquer deficiências possam ser mais integrados ao cotidiano do qual fazem parte.
– Nós temos que aprender com a Bósnia e com o Iraque, que, após seus conflitos, ajudaram os feridos a representarem seus países nos Jogos Olímpicos – disse o técnico e campeão mundial que levantou 250 quilos durante o Torneio de Levantamento de Peso, na Malásia, em 2005.
Da ONU, a mensagem para este ano é de que o desafio maior em todo o mundo seja ainda promover a igualdade e o acesso. As negociações sobre Desenvolvimento Sustentável da Rio + 20, realizada em junho deste ano, também levantaram a bandeira da acessibilidade como questão primordial para o desenvolvimento. A Convenção sobre os Direitos de Pessoas com Deficiênciareconhece que existem barreiras para uma efetiva participação em toda a sociedade.

Resquício da luta contra o Gaddafi nos muros de Trípoli - Natalia da Luz Para isso, algumas medidas vêm sendo estabelecidas com mais rigor, como a obrigação em contratar um percentual de pessoas com deficiência e a criminalização do preconceito. No Brasil, por exemplo, tal situação constitui-se em crime. O Código Penal Brasileiro define como passível de punição qualquer ato de preconceito contra as pessoas com deficiência.

No caminho do desmantelamento das barreiras,há também a luta pela empregabilidade, que possui uma incrível variação entre países considerados desenvolvidos e subdesenvolvidos. Segundo relatório do Banco Mundial, na Índia, por exemplo, 87% dos deficientes que trabalham estão no setor informal. Além da informalidade, há de aumentar o número de vagas permanentes  em detrimento das temporárias. Pesquisas nos Estados Unidos mostram que 44% dessas pessoas possuem um emprego temporário, o dobro dos 22% sem deficiência.

Recepção ao chegar em Trípoli, capital do país - Natalia da Luz

Os dias 3 de dezembro (no mundo) e 13 de dezembro (dia escolhido pela cultura árabe para homenagear as pessoas com deficiência) têm inspirado debates esclarecedores sobre o tema, e há uma pressão para que a sociedade melhore a partir de todos.
– Esse é um momento único para o país, que dá sinais da escolha de uma rota de inclusão, onde as minorias devem ser valorizadas. No Brasil, tivemos um avanço expressivo neste campo. Agora na Líbia, penso que podemos contribuir e ajudar a prolongar esse sentimento de justiça na sociedade – completou o embaixador brasileiro.