Daniele Martins contesta critérios de convocação da Bocha Paraolímpica

O blog Paraolímpicos coloca a carta de Daniele Martins. A paraatleta não foi convocada para a classe BC3 e contestou os critérios. Como espaço democrático, o site apresenta um lado e espera receber a resposta do CPB

Leia o conteúdo abaixo:

Olá Sr. Andrew Parsons e Sra. Luciana Scheid, como mencionei à Sra. Luciana que escreveria, aproveito o fato oficializado para tentar esclarecer sobre uma séria contradição na declaração do Presidente do CPB na divulgação da convocação oficial para o Parapan de Guadalajara:“Todos passaram por um ano árduo de qualificação… Não tenho dúvidas de que temos a delegação mais bem preparada que já enviamos para uma competição internacional”.

Tenho conhecimento sobre os processos de qualificação mencionados e o quanto são importantes, e concordo que todos nós sejamos submetidos a eles, porém, não compreendo qual foi o equivoco que me deixou fora da lista, pois sou atleta de bocha e estou qualificada para os Jogos Parapan Americanos (a mais qualificada de minha classe – BC3), mas não fui convocada.

De acordo com o Guia de Qualificação para os Jogos Parapan Americanos de 2011, divulgado pelo Comitê Paraolímpico Internacional (IPC) e Comitê Paraolímpico Americano (APC), eu estou qualificada, pois na página 28 do Guia, no primeiro parágrafo referente aos Princípios do Sistema de Qualificação, é descrito o critério que qualifica os seis atletas, da região (América), melhores colocados no ranking mundial individual do CPISRA, no qual eu me encontrava em 19º em relação ao total e em 4º, dentre todos os atletas das Américas (Boccia World Ranking de 23 de junho de 2010).

Não pretendo, de modo algum, subjugar o trabalho de meus companheiros, e tão pouco acusar a ANDE de sabotagem premeditada, porém acredito que, como atleta e, principalmente, brasileira contribuinte dos sistemas financeiro e democrático nacionais, tenho o direito de investigar e não aceitar que eu e o Brasil sejamos prejudicados, pois, além da minha prévia qualificação para os Jogos Parapan Americanos, também estou Pré-Qualificada para as Paraolimpíadas de 2012, pois, de acordo com o mais recente Ranking divulgado (World Ranking List of BC3, de 13 de setembro de 2011) eu estou em 12º lugar, e entre os seis classificados para os jogos paraolímpicos individuais (conforme relatado na página 4 do Documento de Critérios de Qualificação para os Jogos Paraolímpicos de 2012, divulgado pelo IPC). Contudo, não participar do Parapan pode acarretar uma queda no ranking, que custaria minha vaga (brasileira) nas paraolimpíadas e provavelmente, até uma medalha para o Brasil no Parapan, já que, atualmente, entre toda a América, sou a atleta melhor colocada no Ranking mundial, além do fato de eu ter alcançado a melhor colocação, entre todos os atletas das Américas, na Copa do Mundo de Bocha 2011, em agosto na Irlanda, (10º lugar), seguida, de longe, por um canadense que obteve a 22ª posição.

Por outro lado, infelizmente, a posição do próximo brasileiro, da minha classe, listado no ranking mundial é 38º, sendo que um dos convocados, além de estar em uma colocação desfavorável (39º), findou a última competição internacional (Copa do Mundo de Bocha) em último lugar (51º), sendo este e outra convocada, que também não alcançou qualificação melhor do que a minha, ambos, atletas de integrantes da comissão técnica que indica os atletas.

Não gostaria de expor essa situação, só me dirijo a vocês porque não posso ser atendida pelos atuais responsáveis pela modalidade que pratico, porém, não venho criticá-los, mas ao contrário, tento cumprir meu papel perante o esporte de alto rendimento e assegurar de que todos vocês estejam cientes da gravidade desta situação e suas possíveis consequências.

Apesar de todas as resistências, pude participar da Copa do Mundo este ano, e precisei superar grandes “obstáculos” para alcançar minha pré-qualificação. Posteriormente, diante de minhas possibilidades, tranquei a faculdade (também sou estudante) e iniciei uma série de investimentos pessoais, visando ajustar as debilidades que me impediram de alcançar o pódio mundial, e melhorar minha capacidade competitiva.

Envio, junto a este, as comprovações de minhas afirmações e aguardo algum parecer, pois, jamais tive o interesse em criar situações constrangedoras para nós, mas também não posso ser condescendente por medo de ser mais prejudicada. Sempre tentei e continuarei tentando, em primeira instância, resolver qualquer conflito, com justiça, da forma mais diplomática e menos traumática possível, mas prezando sempre pela transparência e bom senso.

Sou verdadeiramente grata ao trabalho daqueles que contribuem com o desenvolvimento do desporto paraolímpico, porém, assim como todos vocês, também mereço e buscarei ser respeitada como profissional do esporte de alto rendimento.

Carta de Daniele Martins – Bocha Paraolímpica