Ser Lesado : Entrevista sobre paradesporto

A atleta Gévelyn Cássia Almeida foi convidada pela Camila e Luciano acadêmicos de Educação Física da Univali – Itajaí – SC para uma entrevista da disciplina de Tópicos Especiais ministrada pelo professor Mauro José da Rosa.


Qual é a sua deficiência?
R. Paraplegia em decorrência de um trauma raqui medular

De que maneira você veio a ficar com essa deficiência, na condição de cadeirante?
Foi devido a um acidente de trânsito que há 11 anos atrás devido a atropelamento onde tive lesão na coluna e nervos, deixando dependente de cadeira de rodas. E em 2008 sofri um outro atropelamento na faixa de pedestres onde tive fratura no braço corrigido com cirurgia com a colocação de placas e amputação parcial de um dedo.

Qual foi à reação de sua família depois do acidente e de saber de sua situação com as seqüelas?
R. Olha de início um choque, pela questão da aceitação vamos dizer na “nova vida” que a partir daquele dia iria levar, mas me apoiaram totalmente e me ajudaram e me ajudam até hoje. No começo foi muito duro fisioterapia intensa, adaptações como a locomoção e aceitação na dependência de uma cadeira de rodas para locomoção, além de adaptações diárias. Nesse período passei por depressão e se não tivesse de apoio da minha família e de uma associação que faço parte até hoje que apóia pessoas com deficiência não sei como estaria psicologicamente por que é difícil a aceitação, porque uma pessoa que nasce com a deficiência já vai se adaptando desde o começo e a aceitação é mais fácil, já a deficiência adquirida no meu caso e de tantas pessoas com certeza é mais difícil.

O que é ser deficiente?
R. Deficiente para mim hoje são as pessoas que nos enxergam diferentes e com preconceito essas são deficientes, pois não nos julgam capaz de realizar as mesmas atividades só que outra forma, não estou sendo radical falando assim mas passamos por várias situações de preconceito na nossa sociedade e ser deficiente é uma delas. Mas todos temos nossas limitações e somos deficientes em alguma coisa ninguém é perfeito. Mas hoje encarando minha deficiência considero as pessoas deficientes como pessoas normais capazes, e que se superam a cada dia nas suas dificuldades cada uma na sua limitação e devem ser vistas e enxergadas pela sociedade e serem inclusas, apoiadas quanto ao tratamento, encaminhamento para o mercado de trabalho, etc. Tenho uma frase que escutei uma vez que levo comigo sempre “Nos tornamos EFICIENTES em um mundo DEFICIENTE” , acho que ser deficiente se resume nas nossas dificuldades diárias.

Quais são as suas maiores dificuldades?
R. Bem as maiores dificuldades é a questão da locomoção em geral, ou seja ônibus adaptados, calçamento, guias rebaixadas, banheiros adaptados, edificações que não estão adaptadas para receber o público em geral nas suas mais diversas dificuldades nisso englobam não só os cadeirantes como pessoas com mobilidade reduzida no caso de idosos ou pessoas com diferentes dificuldades

Quando você chega para uma competição qual seu principal objetivo?
R. Meu principal objetivo é fazer o meu melhor dar o máximo de mim e se tiver como conseqüência a vitória melhor ainda.

Quando e como você começou no esporte?
R. Por meio da AFADEFI conheci o esporte para pessoas com deficiência, No ano de 2007 procurei a entidade afim de realizar tratamento de fisioterapia e me encantei com a possibilidade de poder praticar um esporte mesmo com a deficiência. Na associação eles utilizam o esporte como ferramenta de inclusão social e também como forma de tratamento em alguns casos pois melhora a qualidade de vida e fornece ao deficiente uma forma de lazer associado aos diversos benefícios que o esporte proporciona.

Iniciei com a prática do Basquete e posteriormente com a prática de atletismo em cadeira de rodas

Com a presença do esporte em sua vida, o que mudou inicialmente?
R. Praticamente tudo, melhorei a minha qualidade de vida totalmente (locomoção, atividades em geral). Mas foi essencial na fase que estava enfrentando de depressão me dando um ânimo e me dando motivos para não baixar a cabeça e esmorecer diante dos problemas.

Depois de uma competição, e de uma vitória, qual seu primeiro sentimento?
R. Nossa a primeira competição me lembro até hoje, chorei um monte embora não tive a conquista da tão esperada vitória, mas pra mim de certa forma ganhei foi minha vitória pessoal. Mas depois de uma competição após a vitória meu primeiro sentimento é de dever cumprido e de superação a cada prova. A primeira coisa que faço depois de uma competição é ligar para a minha mãe que ela sempre torce por mim ela se pudesse estaria sempre nas competições torcendo por mim como sempre torce mesmo não estando presente. Minha família sabe que o que consegui até hoje foi através de dedicação e outros momentos que abrimos mãos de muita coisa para se dedicar ao esporte.

Resuma o esporte em sua vida hoje.
R. O esporte para mim é tudo, inclusão social, qualidade de vida e superação a cada dia principalmente durante as competições.

Quais suas provas preferidas?
R. As minhas provas preferidas são as provas de rua maratonas e rústicas.
As maratonas principalmente porque é uma prova muito desgastante são 42 km 195 m onde os atletas buscam o seu máximo , superando seus limites físicos é uma prova de resistência onde cada atleta apóia o outro para que possa completar a prova.

As modalidades são divididas em categorias, qual é a sua?E como se da essa divisão?
R. Sim as modalidades são divididas em categorias de acordo com o grau de deficiência equiparando em classes para que um atleta não haja desigualdades ou seja no atletismo são duas classes Track (T) provas de Pista corridas em geral, e Field (F) provas de Campo provas de arremesso como é no caso do dardo por exemplo. A minha classificação é T54 ou seja corro com o auxílio de cadeira de rodas e tenho boa função de tronco comparada com a classe T53 que não tem função nenhuma função de tronco. O basquete é a única modalidade onde podem jogar vários jogadores com diferentes classificações funcionais ou seja as menores pontuações são os maiores graus de deficiências e as maiores menor, essas pontuações variam de 1 a 4,5 de meio em meio ponto e a somatória dos 5 jogarores em quadra não pode passar de 14 pontos, é um esporte que pessoas com lesão medular no caso de cadeirantes pode-se jogar com amputados por exemplo e as regras são as mesmas do basquete convencional.

Sua vida hoje:
Minha vida hoje é muito corrida mas tudo vale a pena quando estamos em busca de nossas metas. Treinamentos intensivos, principalmente após a minha convocação para o para pan a ser realizado no México esse ano em Novembro foi uma transformação total e acima de tudo vai ser mais dedicação ainda.

Mas como disse tenho muitas dificuldades em conciliar a minha vida de esportiva a vida pessoal principalmente a vida acadêmica pois estou cursando fisioterapia na UNIVALI mas sempre tive este apoio da universidade por parte dos professores, da coordenação de meu curso bem como dos amigos. E esse apoio cresceu pois desde o ano passado represento a UNIVALI nas competições que participo e só tenho a agradecer este apoio a cada dia que passa.

Apoio este que se estende a minha família incondicionalmente e na associação AFADEFI de Balneário Camboriú que me fornece todo o suporte essencial para continuar competindo.

Mas tudo isso vale a pena com certeza. Gostaria de agradecer a vocês pela entrevista e estender o agradecimento aos que apóiam e admiram o esporte adaptado.

Entrevista Acadêmicos Educação Física UNIVALI

Luciano Medeiros Machado, Camila de Oliveira
Disciplina: Tópicos Especiais
Professor: Mauro José da Rosa

Fonte: http://gevelyn.blogspot.com/