Dívidas com aluguel ameaçam despejo de entidade filantrópica, em Manaus

Entidade recebe diariamente 20 crianças e adolescentes em busca de atendimento psicológico, fisioterápico e alimentação
Os olhos de Maria do Perpétuo Socorro Dias, 55, enchem-se de lágrimas quando ela começa a imaginar como será o dia em que começa a viver. A todo momento, pensa que irá receber um comunicado anunciando que terá de abandonar a casa, ocupada pela Associação de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais (AAPNE), situada no conjunto Beverly Hills, no bairro Chapada, Zona Centro-Sul de Manaus, entidade criada e dirigida por ela há seis anos.

A aflição tem uma justificativa. A AAPNE recebe diariamente aproximadamente 20 crianças e adolescentes em busca de atendimento psicológico, fisioterápico e alimentação.

Com o pagamento do aluguel atrasado há sete meses, Maria Dias não sabe a quem recorrer, pois está ainda em processo para firmar convênios com órgãos estadual e municipal de apoio a esse serviço prestado por ela.

O pagamento do aluguel vinha de recursos de um convênio mantido pela associação e a Petrobras que, finalizado no ano passado, está em processo de renovação e como houve troca de gestor no órgão em nível nacional, isso atrasou o procedimento.

“A questão é que não sei quanto isso vai demorar e nem até quando o proprietário terá paciência e condições para esperar”, afirmou ela, enquanto no último sábado (14), se preparava para o lançamento de uma campanha de arrecadação de recursos financeiros para adiantar algum valor do aluguel.

“Vamos para as ruas pedir a doação de R$ 1 de cada pessoa porque, se cada um der, poderemos completar uma quantia importante para quitarmos parte da dívida que temos, do aluguel”, explicou.

Dívida
O valor do aluguel da casa é fixado em R$ 2,5 mil e a dívida já soma mais de R$ 15 mil.

Ela justifica a escolha do local pela necessidade de atender bem as crianças e adolescentes que ali desenvolvem várias atividades de lazer.

A clientela é de baixa renda e, em geral, usa a associação quando está em deslocamento para atendimento médico e psicológico ou mesmo enquanto vão trabalhar.

“Nós temos médicos e psicólogos voluntários que atendem voluntariamente os nossos associados, mas precisamos diariamente ter alimentação para essas crianças e nem sempre isso é possível”, afirmou Maria, argumentando que as doações acabam sendo esporádicas enquanto o consumo diário de refeições é de no mínimo 20 só no almoço, fora as demais.

“As mães deixam aqui porque sabem que vamos dar um jeito, mas estamos no nosso limite”, disse ela, que já experimentou a sensação de despejo em outras épocas, sempre pelo mesmo motivo: falta de dinheiro para pagar o aluguel do espaço.

Para ela, que luta praticamente sozinha e por isso encontra dificuldades em organizar os papéis exigidos para se beneficiar de recursos estaduais e municipais, organizar a campanha e ir para as ruas não tem sido fácil.

“Conto com a ajuda e a boa vontade de poucos amigos, mas sem eles essas crianças e adolescentes estarão mais sozinhos e abandonados do que nunca”, desabafou.

Maria frisou a importância de se manter o trabalho da AAPNE. Muitas vezes as famílias que têm alguma criança ou adolescente com algum tipo de deficiência não sabem e não têm a quem recorrer.

O objetivo da AAPNE é auxiliar essas famílias e ajudar na evolução dos pacientes.

Doadores
Entre os principais doadores do FMDCA estão Petróleo Sabba, com doações direcionadas ao Lar Batista Janell Doyle, a Benchimol e Fogás, com doações ao Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC) e Casa Vhida, a Petrobras, que doou para a Associação dos Pais e Amigos de Pessoas com Deficiência do Amazonas (Ademe) e a Moto Honda da Amazônia, para o Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC).

Inscrição
Uma luz no fim do túnel poderá se acender com a formalização da inscrição da AAPNE no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), órgão vinculado à Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh).

Só a partir dessa inscrição, a entidade poderá fazer convênios e receber ajuda da Prefeitura Municipal, informa o secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh), Sildomar Abtibol.

De acordo com ele, com essa regularização a entidade pode se habilitar a participar de convênios e projetos de doações promovidos por empresas que investem diretamente nas associações, como acontece com várias em Manaus.

Segundo Sildomar, só no ano passado, a Semasdh contabilizou a doação de R$ 856.934 para o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FMDCA) feita por 36 grandes empresas e também de pessoas físicas, algumas que não fazem questão de ser identificadas. Algumas doações são direcionadas a entidades sociais, mas a maioria vem por meio do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FMDCA), que sensibiliza empresas e pessoas físicas a utilizar a renúncia fiscal do Imposto de Renda para destiná-la a instituições responsáveis pela assistência ao público infanto-juvenil.

Empenho
“Comecei a  me dedicar ao trabalho com os portadores  de necessidades especiais após o nascimento do meu filho (o nadador paraatleta) Jean Dias (que que nasceu prematuro e teve paralisia cerebral). Me especializei sobre o assunto. Essas pessoas precisam cada vez mais de atenção, e não podemos deixa-las sem o apoio no dia a dia”.

Fonte: A Crítica

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