Eles fazem a diferença no dia a dia do Samu

As cerca de 9 mil chamadas recebidas diariamente pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), no 192, passam por pouco mais de 130 atendentes que sabem como é viver a vida com limitações físicas. Acidentes, tiros e deformidades congênitas ajudaram a dar a eles a sensibilidade necessária para se colocar no lugar do outro e entender o sofrimento de quem precisa de auxílio em uma emergência.

Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE
Antonio Marinho

Todos os atendentes do Samu na capital são portadores de algum tipo de deficiência física. Em 200 horas de treinamento, eles receberam noções de atendimento pré-hospitalar e informações sobre um programa que os ajuda a definir a gravidade da situação. O diferencial está na forma como os portadores de deficiência evitam descartar os chamados. “Eles têm identificação maior com os problemas dos outros. Sentem-se úteis em poder auxiliar quem necessita de ajuda e, por isso, são mais atenciosos”, diz Domingos Guilherme Napoli, coordenador do serviço na capital.

Após definir a gravidade do problema, o atendente repassa a ligação ao setor de despacho, que também conta com portadores de deficiência. Eles então deixam a decisão de mandar ou não ambulância ao local para um médico regulador, que responde legalmente por uma eventual decisão equivocada. “A palavra final é sempre de um médico”, explica Napoli.

Nos fundos do segundo andar do prédio do Samu, na Rua Jaraguá, Bom Retiro, os chamados são constantes. O ritmo dos atendentes é frenético e toda ligação é vista como questão de vida ou morte, até se saber o que de fato está acontecendo do outro lado da linha. “Coloque um pano limpo sobre o ferimento para estancar o sangue”, “veja se ele está respirando” e uma série de outras frases expõem a tensão diária. Cadeiras de roda e teclados adaptados dão mostra de que ali trabalham pessoas com necessidades especiais, embora nem sempre a deficiência física do atendente seja visível.

Há pouco mais de um mês no Samu, Verônica Miranda de França, de 31 anos, diz que ali não se sente diferente. “Às vezes, na rua, parece que somos de outro mundo. As pessoas olham com pena. Aqui ninguém é bonzinho demais por ser deficiente e isso é muito bom.”

Verônica foi atropelada há sete anos, quando tirava o carro do marido da garagem, e perdeu o movimento das pernas. “Senti que elas murcharam na hora e não andaria mais.” Chegou a pensar que nunca sairia da cama. “Mas vi no Teleton (programa do SBT) uma moça que trabalhava e tocava a vida, mesmo sendo portadora de deficiência. Decidi que poderia ser daquele jeito.”

Fonte – Estadão