Go!Faster – Diário de bordo de Ádria dos Santos

 

04 de Janeiro de 2011
Embarcamos em Joinville para encontrar a delegação em são Paulo, lá recebemos as orientações sobre a viagem e também os uniformes que foram utilizados durante 30 dias.

06 de Janeiro de 2011
Fizemos o embarque internacional com destino a Cristchurch (Nova Zelândia) através da companhia aérea Aereo Lineas Argentinas com escala em Buenos Aires. Esperamos 8 horas no aeroporto internacional, que parecia com o aeroporto de Joinville, saindo de Buenos Aires com destino a Aukcland. Procuramos dormir o vôo todo por recomendação do médico da seleção, para melhor adaptação ao fuso horário (que é de 15 horas de diferença), chegando a Aukcland a tempo para um lanche.
Procuramos alguns sanduíches naturais na lanchonete próxima, notamos uma fartura de produtos feitos a partir do kiwi (de hidratantes, vinhos, chocolates, sabonetes etc.) não é pra menos, o kiwi é típico da Nova Zelândia.

07 de Janeiro de 2011
Chegamos a Cristchurch às 13h, com sol e vento. Primeiro contato com o hotel e primeiro treinamento, saímos do hotel caminhando até um dos parques da cidade onde lá fizemos um leve alongamento, trote de 15 minutos e depois coordenação motora, justamente para não dormir e também soltar um pouco a musculatura depois de 33 horas de aeroporto e vôos.
Primeiro contato com a comida do hotel, nos primeiro dias, a comida era muito boa (por solicitação do Comitê Paraolímpico Brasileiro) hotel com boa estrutura, o melhor hotel da cidade de Cristchurc. Ele fica localizado no centro da cidade onde tem alguns pontos turísticos como a Catedral de Cristchurc. Ali perto, uma praça onde eram realizadas feiras de produtos típicos da cidade como mel, kiwi e a famosa Pedra de Jade que lá custa muito pouco (a maioria dos atletas brasileiros voltaram com um brinco ou colar de Jade), logo após esta praça, estava o centro comercial da cidade com muitas lojas esportivas, restaurantes, casas de suvenires e eletrônicos. Cidade totalmente asfaltada e adaptada com sinais sonoros no semáforo e piso tátil, neste asfalto estavam as marcas dos últimos terremotos sofridos na cidade (o mais forte foi em setembro de 2010 com 7.1 da escala Richter). Na cidade, ainda existiam muitas casas e prédios caídos ou parcialmente destruídos pelos tremores, a cidade preservava alguns deles, acredito que por servirem como ponto turístico para cidade também.

De volta às pistas
Treinamos aclimatação ao fuso até o dia 20/01 dentro de um clube da cidade, boa estrutura, com pista de competição, pista de aquecimento, musculação, piscinas, parque aquático e até centro de estética.
Durante este período, encaramos as extremas variações do clima local, com dias de sol forte e dias de muito frio (9° mais chuva). Lá o verão é parecido com nosso início de inverno.
Nos primeiros treinos a pista era 100% para delegação brasileira, três dias mais tarde, chegaram as delegações dos outros países e enfrentamos um verdadeiro “crowd” na pista.

E o chão treme
No hotel, começamos a perceber uns tremores leves, como se um caminhão estivesse passando na rua. Foi quando o chefe de delegação nos avisou que estes pequenos tremores eram normais na cidade, mas estava ficando muito constantes.
Numa certa manhã, lá pelas 06h10, sentimos o tremor mais forte onde o quarto todo tremeu, as paredes balançaram a televisão se mexeu durante 15 segundos, os atletas saíram dos quantos para ver o que tinha acontecido, ligamos para outros quartos para ver se estava tudo bem, parecia que estávamos dentro de uma locomotiva, uma sensação terrível. A Ádria não dormia bem, tendo pesadelos com os tremores, naturalmente, ficamos em estado de alerta como que esperando o próximo tremor acontecer.

A abertura dos jogos
Dia 21/01, na praça da cidade, as delegações se reuniram em uma rua próxima para se agruparem, para depois desfilar pelas ruas da cidade até chegar ao centro da praça onde estavam o prefeito da cidade, ministro e dirigentes esportivos e um grande público. No palanque, avistamos também a tribo tradicional da Nova Zelândia os Maoris, que se apresentaram na abertura, com clima frio.

Primeiros tiros. Primeiro desafio: os 200 metros
Em 22/01 aconteceu a primeira prova, os 200 metros, chegamos na pista de aquecimento três horas antes da prova, alongamento, trote, coordenação…
Fomos para câmara de chamada 40 minutos antes do início da prova, nesta câmara eram conferidos, uniformes, óculos para verificar se estavam vendados, numeração, tamanho dos pregos da sapatilha e também se não estávamos entrando com aparelhos sonoros como celular, mp4 etc., terminado este procedimento, que era feito em todas as provas, fomos para pista (uma das melhores e mais rápidas do mundo) nesta série tínhamos como adversária uma chinesa e uma venezuelana.
Fomos para o bloco de partida, a arbitragem demorou muito para dar o tiro de saída, ou seja, esperamos muito tempo na posição de saída, a Ádria não ouviu o comando de pronto – onde o atleta levanta o quadril para sair – eu como guia, avisei para ela levantar o quadril, mas perdemos algum tempo ali. A nossa curva na prova foi boa, entramos na reta final na frente, mas no fim da prova, 20 ou 30 metros faltou resistência de velocidade, uma pena, ficamos em terceiro.
Não conseguimos classificar para final, agora vamos para os 100 metros (não deu em uma vamos tentar na outra!).

100 metros
É dia 24/01, semifinal. Chegamos na pista, o mesmo procedimento com foi na prova dos 200 metros, Ádria preferiu trocar de guia nos 100 metros e correu com Everaldo, ela saiu muito bem na frente até os 80 metros da prova, novamente faltou resistência de velocidade, a vontade de chegar na frente era tão grande que ela fez mais força e tropeçou dificultando ainda mais, terminou a prova em segundo, mas novamente não se classificou. Ficou chateada pensando que iria voltar com nenhuma medalha deste mundial, contrariando seus 23 anos de carreira onde nunca voltou de uma competição sem medalha – seria esta a primeira vez?

400 metros
Dia 25/01, a vez da semifinal dos 400, procedimento padrão já decorado, entramos na pista, era a última chance de uma medalha em provas individuais, era agora ou nunca! Como adversárias uma chinesa que não conhecíamos e uma mexicana. Nossa estratégia era sair forte e testar o ritmo delas. Nos primeiros 100 metros passamos a mexicana, nos 200 metros encostamos e passamos a chinesa, entramos na reta final na frente, agora era Ádria x Ádria. Olhei pra trás, tudo sob controle.
Pedi para a Ádria diminuir o ritmo, poupamos energia para a final, era tudo o que ela queria. Alegria transbordando!

A primeira final: 400 metros
Dia 26/01, três adversárias fortes pela frente: a recordista mundial na prova, uma atleta Inglesa com muita experiência e uma colombiana. Saímos mais forte agora do que na semifinal, nosso objetivo era chegar na frente da inglesa que tinha feito um tempo um pouco melhor do que o nosso na semifinal, fomos para cima, tentamos até onde as pernas aguentaram, pegamos a raia sete, ou seja, nós sairíamos na frente de todos. Fomos ultrapassados nos 200 metros pela recordista mundial e nos 250 metros pela inglesa, ficamos com o bronze, felizes por sair do mundial de atletismo com uma medalha em prova individual.

Relax. Reload.
Dia 27/01, intervalo de dois dias antes da próxima e última prova da competição (o revezamento 4×100). Tiramos este dia para recuperação e integração. Dia de parque aquático. Reunimos as quatro atletas desta prova para conhecer a estrutura do parque com piscina de ondas artificiais, trampolim de três metros, seis, nove e quinze metros, devidamente dispensado por questões de segurança (risos).
Havia ainda duas piscinas olímpicas com atletas treinando, a melhor parte do local eram os toboáguas coloridos, cada cor representava um grau de dificuldade, fomos em todos. “Adorei tudo, porque descreveram para mim a estrutura do local, no começo fiquei insegura em algumas atrações do parque, por eu não enxergar o desconhecido dá mais medo” conta a Ádria.

A última prova. A força da equipe.
Dia 28/01, era a vez do revezamento 4×100. Era o dia mais esperado, muita responsabilidade, a Ádria tinha a responsabilidade de abrir o revezamento do Brasil, ou seja, não podia queimar a saída, fazer uma boa curva e a passagem melhor ainda.
Nas palavras da Ádria: “senti uma responsabilidade muito grande de estar abrindo o revezamento do Brasil. Já participei de muitos revezamentos, mas foi a primeira vez que abri numa competição tão importante, com toda a mídia, público e a cobrança pessoal, me senti muito honrada, senti um nervosismo, mas com muita vontade de vencer e fazer o correto, me concentrei muito no momento do pronto para fazer uma boa saída, assim que ouvi o tiro reagi.”
“Com muita vontade fiz aquela curva e na minha mente só vinha a vontade de correr e me concentrar na passagem do bastão para eu não prejudicar o guia, pois é ele quem passa o bastão e pela regra, o atleta no momento da passagem do bastão tem que estar à frente do guia para não ser desclassificado” completa a Ádria.
A passagem não foi lá aquelas coisas, mas foi uma boa passagem, ficamos muito felizes por termos feito bem a nossa parte, vencemos o revezamento!
Foi uma festa de todos, vibramos muito dentro da pista, todas estavam com as unhas iguais e flores no cabelo com as cores do Brasil.

Day after
Depois da competição, fomos conhecer o centro antártico com várias espécies de pinguins, leões marinho, neve artificial e até focas empalhadas. Uma experiência sensorial e tanto para a Ádria. A melhor de todas foi a sala que reproduzia ambiente antártico, esta sala tinha iglu, motos de neve e uma temperatura ambiente a oito graus negativos com direito a nevascas que faziam a temperatura despencar para vinte graus negativos. Mãos e nariz dormentes.

Jardim das flores
Um dia antes da viagem de volta, fomos ao Jardim das Flores. Tentei descrever para a Ádria a beleza daquele lugar, com vários tipos de rosas, cores e cheiros, hortênsias e rosas bem maiores do que as que temos aqui no Brasil.

Brasil, o retorno
Finalmente, no dia 02/02 chegamos ao Brasil (em Brasília mais especificamente) e fomos recebidos pela presidenta Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. Evento reservado, somente a presidente e ministros dos esportes, atletas e mídia. Ela cumprimentou individualmente cada atleta e integrante da delegação pelo resultado no mundial, no mesmo dia retornamos para Joinville e finalmente chegamos em casa.
Merecido descanso de duas semanas e já estamos treinando visando pan-americano em novembro 2011.
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Parabéns pela matéria de Rafael Krub