Atletas com necessidades especiais superam desafios também fora dos treinos

As dificuldades enfrentadas pelo atleta paraolímpico Ariosvaldo Silva, 34 anos, começam assim que ele cruza o portão de sua casa, na QNN 7 (Ceilândia Norte) e só terminam quando chega à pista de atletismo do Centro de Educação Física e Desporto de Alto Rendimento Escolar (Cefare), na 907 Sul. Morando a 800m da estação terminal do metrô, o quarto cadeirante mais veloz do mundo divide a pista com carros, bicicletas, motos e precisa desviar de buracos o tempo inteiro. Onde deveria haver uma calçada regular, só se vê barro e mato. Após encarar 45 minutos de viagem até a estação 108 Sul, ele sobe quase 2km até o local do treino. O caminho acidentado torna o percurso ainda mais duro e a determinação fortalecida no esporte é o principal impulsor nesses momentos.

“Muitas partes de Ceilândia não têm calçada. Fico de cara com Brasília. Aqui tinha que ser exemplo na saúde, na educação e no transporte para o restante do Brasil. No entanto, é tudo caótico. Desafio o Niemeyer (arquiteto Oscar Niemeyer, que hoje, aos 103 anos, passou a usar cadeira de rodas) e qualquer outro cadeirante a fazer o percurso que eu faço todos os dias. Tudo o que sei fazer hoje (consegue subir e descer meio-fios e escadas rolantes na cadeira) foi conquistado com muito suor. O esporte me ajudou a ter mais força e equilíbrio no tronco”, avalia.

Parré, como é mais conhecido, teve poliomielite quando tinha um ano e seis meses. Nascido no interior da Paraíba, ele e os pais se mudaram para Brasília com a esperança de que o filho voltasse a andar, mas não havia chance de reversão. “Minha mãe sempre me levava no colo para todos os lugares. Ganhei minha primeira cadeira de rodas aos 9 anos e por conta da superproteção materna, eu era travado, inseguro. O esporte ajudou a despertar minha independência. Muitos deficientes se escondem em casa, como eu fazia, por vergonha de pedir ajuda aos outros e por medo de sofrer preconceito. Mas isso é bobagem”, ensina. “Antigamente, o deficiente era visto só como deficiente. As pessoas não imaginavam que ele poderia ser um atleta, um advogado, um médico, um juiz. Todos têm direito de ir e vir e não poderia ser diferente para a gente”, completa.

Ele, que mudou de Planaltina para Ceilândia para ficar perto do metrô, lembra como era complicado o tempo em que andava de ônibus. “Eu comecei no basquete aos 16 anos. Só ia para os treinos, no fim da Asa Sul, acompanhado do meu irmão e de um amigo, que me ajudavam a subir e a descer com a cadeira. Até que um dia olhei para minha mochila e pensei: o cobrador e o motorista também podem fazer o mesmo que o meu irmão. Não deu outra. Foi muito difícil porque naquela época não existia acessibilidade.” O atletismo entrou na vida de Parré oito anos depois, quando o time de basquete em cadeira de rodas do Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe) acabou.

No metrô, Parré sente-se em casa. “Nunca vi o elevador ou a escada rolante quebrados e, quando preciso de ajuda, os funcionários são solícitos. O único problema que ocorre é com as pessoas. Às vezes encontramos algumas que não respeitam o assento preferencial, mas o monitor do vagão sempre dá avisos no alto falante, lembrando o nosso direito”, afirma.

Já acostumado com a acessibilidade metroviária, o atleta passou por um apuro na quinta-feira da semana passada. “Precisei ir ao Conjunto Nacional e nem o elevador nem a escada rolante estavam funcionando. E disseram que não havia previsão de quando voltariam. Precisei pedir ajuda para subir. Os governantes precisam ter outros olhos para encarar a situação não só por deficientes, mas pela população que fica bastante prejudicada com o abandono. Por essas e por outras eu preferi me mudar para perto do metrô.”

Transporte adaptado

De acordo com a Secretaria de Estado de Transporte do DF, há hoje 985 ônibus com acessibilidade aos portadores de necessidades especiais em circulação. Estão previstas duas licitações para a aquisição de 1.200 coletivos novos, com piso rebaixado. A primeira, de 300 veículos, está em curso e passa por ajustes no Tribunal de Contas do DF. A outra, de 900, ainda não está pronta e passará primeiro pelo crivo do TCDF, para depois ser aberta. “Consideramos que o acesso ao sistema de transporte público coletivo é fundamental ao amplo exercício da cidadania. O modelo de transporte que está sendo implantado no Distrito Federal contempla, entre outros requisitos, aqueles necessários à plena acessibilidade aos portadores de necessidades especiais usuários do transporte coletivo”, afirmou o secretário da pasta, José Walter Vazquez Filho.

Fonte – Super Esporte

 

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