Clodoaldo Silva confirma adeus das piscinas em Londres/2012

Clodoaldo Silva, o Tubarão, encerrará a carreira depois dos Jogos Paraolímpicos de Londres/2012. Em entrevista ao Blog Paraolímpicos, o maior medalhista brasileiro da história revela que dará prioridade à família, ao Instituto Clodoaldo Silva e à novos projetos destinados ao desporto acessível. “Em minha última paraolimpíada, motivação é o que não falta. Quero pendurar  a minha sunga com chave de ouro e ser campeão em uma nova categoria para unificar os títulos com a minha categoria anterior”.

O nadador começou a carreira em 1998 no Rio Grande do Norte e pouco tempo depois já era apontado como o fenômeno das piscinas paraolímpicas. Foram quase 100 campeonatos nacionais, dezenas de competições internacionais, três ParaPan-Americanos, três mundiais e três Paraolimpíadas.

As 13 medalhas paraolímpicas (06 ouros, 05 pratas e 02 bronzes) colocam o atleta como o maior da historia do Pais, tanto em quantidade como em qualidade.

Veja o que Clodoaldo Silva disse ao Blog Paraolímpicos

Blog Paraolímpicos: Preparado psicologicamente para pendurar a sunga depois de 2012?

Clodoaldo: Preparadíssimo. Tudo que eu penso em fazer a curto, médio e longo prazo, me preparo bastante. A minha historia no esporte de alto rendimento para pessoas com deficiência começou no ano de 1998. Conquistei todas as medalhas e prêmios que disputei em minha carreira. Todos os objetivos dentro da água foram alcançados. O meu pensamento sempre foi de traçar novos desafios, objetivos e metas em minha vida e ter a consciência que já fiz a minha parte dentro da água no esporte paraolímpico, em 2012, após as paraolimpíadas de Londres, quero novos desafios. Ser um campeão fora das piscinas é um sonho.

Blog Paraolímpicos: Como será sua preparação até lá? Quais provas e quais “categorias” funcionais?

Clodoaldo: Até lá, eu estarei treinando em dois períodos de segunda a sexta e no sábado em um período.  Serão pouco mais de 60 mil metros  (60 km) semanais nadando em 11 sessões e ainda tem a parte fora da água: academia, flexibilidade, medicine ball, pliometria e psicologia.

Nos jogos paraolímpicos de Londres, eu vou disputar cinco provas individuais (50, 100 e 200 metros livre, 50 metros borboleta, 100 metros peito) e duas coletivas  (revezamento 4×50 m livre e o medley).

Blog Paraolímpicos: O que vai fazer depois? Será um gestor esportivo?

Clodoaldo: Primeiro, quero ficar de “bobeira” por seis meses só para curtir o meu irmão, irmãs, sobrinhos, a minha “mãezona”, meus cachorros e a minha esposa. Após isso, quero fazer um curso universitário  e me dedicar ao instituto Clodoaldo Silva.

Blog Paraolímpicos: Faltam treinadores qualificados para a modalidade?

Clodoaldo: Não só na natação, mas em muitas modalidades voltadas para pessoas com deficiência. Existem muitos tipos de deficiência e cada caso é um caso e tem sua particularidade. Sendo assim, o treino precisa ser individualizado. A maioria dos profissionais de Educação Física está acostumada a trabalhar com equipes convencionais  que não necessitam de tantos cuidados.

Porém, essa realidade está mudando rapidamente em nosso País. Hoje, nas faculdades, por exemplo, tem uma disciplina especifica para pessoas com deficiência e existem alguns cursos por todo o Brasil, através dos clubes que atuam neste segmento capacitando estes profissionais.

Blog Paraolímpicos: Por que é “fácil” achar um talento na natação paraolímpica do dia pra noite?

Clodoaldo: A natação paraolímpica é dividida em categorias (01 – maior grau de deficiência, 10 – menor grau de deficiência para físicos-motores e de 11 a 13 são cegos e deficientes visuais). Nesta modalidade, atletas competem entre si das mais variadas deficiências, ou seja, amputados, paralisados cerebrais e cadeirantes competem em uma mesma categoria. Dependendo do estilo, uma dessas deficiências será “beneficiada” e conseqüentemente, este atleta ira chega na frente. Por este motivo, é comum ver um atleta com tão pouco tempo de treino se destacar no movimento paraolímpico.

Existe a classificação funcional que é realizada por profissionais da educação física ou um fisioterapeuta. O objetivo é deixar as competições paraolímpicas mais justas, porém, este segmento do esporte de alto rendimento para pessoas com deficiência ainda é muito novo e como tudo que é novo, sempre está em constante mudança e evolução.

Blog Paraolímpicos: Como você se tornou um nadador de alto rendimento? Quem te achou?

Clodoaldo: Costumo dizer que sou um atleta por acaso: a origem da minha deficiência foi em decorrência da falta de oxigenação, durante o parto, que ocasionou uma paralisia cerebral. Tive que passar por várias intervenções cirúrgicas para melhorar a minha locomoção e a última foi em 1996. Neste ano, por orientação médica, comecei um tratamento fisioterapêutico dentro da água e dali para frente  comecei a me destacar, até receber um convite para participar das competições paraolímpicas.

Participei do meu primeiro campeonato em 1998 onde ganhei as minhas primeiras três medalhas de ouro. Para chegar nesse campeonato e tantos outros, passei por muitos obstáculos: Eu tinha que me preocupar em estudar, trabalhar, treinar e ainda buscar patrocínios para poder viajar para as competições. Por tantas vezes, eu saia do trabalho ou do treino direto para as empresas com o meu “projetinho de patrocínio nas mãos” e por quantas vezes ficava aguardando para ser recebido pelos empresários. Em outras vezes, ligava para a empresa para confirmar a reunião, chegava no local do encontro e me falavam que o empresário não estava. Eu sabia que ele (empresário) estava lá.

Hoje, essas pessoas que me negavam um patrocínio, são os mesmos que me procuram e me parabenizam pelos meus resultados. A minha família foi e é muito importante em todas as fases da minha vida e carreira esportiva. Graças a eles consegui superar com êxito todas essas barreiras.

Blog Paraolímpicos: Você se considera pioneiro da natação de alto rendimento paraolímpica?

Clodoaldo: Não! O Brasil participa de jogos paraolímpicos, desde 1972. Nas varias competições que participou, conseguimos muitas medalhas e essas medalhas contribuíram para surgir grandes atletas. Bem antes de mim na natação, tinha o Gledsom Soares, Genesis Alves, José Afonso de Medeiros e muitos outros. Estes sim, são pioneiros. Eu fui apenas o atleta que mais conquistei medalhas em edições de jogos paraolímpicos.

Blog Paraolímpicos: O que falta para o Brasil se consolidar como potência?

Clodoaldo: O Brasil paraolímpico já é potência. È muito bom chegar às competições e os adversários olharem com respeito, sabendo que não estamos lá para passear. Acredito que, para obtermos muito mais resultados expressivos tanto no cenário paraolímpico, quanto no olímpico brasileiro, temos que começar pelas prefeituras e estados. As autoridades precisam fornecer  bolsas de ajuda de custo para os atletas, como faz o Governo Federal.

As empresas privadas também têm que realizar o seu papel na colaboração com os dois movimentos, através do patrocínio, principalmente a médio e longo prazo e não só o de curto prazo.