Entenda o caso #daninomundial

Daniele Martins é bicampeã brasileira de bocha adpatada e está fora do Mundial da categoria. A atleta não gostou nada de não ser chamada e botou a boca no trombone.

Segundo o site Menina do Esporte, dados demonstram possível má-fé por parte dos dirigentes e técnicos responsáveis pela seletiva. Dani é dona do título de bicampeã brasileira e é a 19ª no ranking mundial (entre 93 atletas – melhor resultado já obtido por um brasileiro em minha classe / BC3) não foi convocada

Leia a carta enviada ao Ministro do Esporte, Orlando Silva

Uberlândia, 28 de fevereiro de 2011

Ao Exmo. Ministro do Esporte,

Exmo. Sr. Orlando Silva, é com extremo pesar que lhe envio esta carta, pois ela é resultado de algo que envergonha a todos nós brasileiros, e denigre a imagem forte e positiva que o paradesporto conseguiu consolidar nos últimos anos. Esta carta trata da falta de ética e transparência nos processos decisórios que implicam a carreira desportiva dos atletas do Bocha Adaptado. Decisões oriundas dos dirigentes e técnicos da Associação Nacional de Desporto para Deficientes (ANDE).

Questionamentos estão sendo feitos à cerca da legitimidade da convocação dos atletas, da classe BC3, a integrarem a Seleção Brasileira de Bocha, que disputará a Copa do Mundo, entre 18 e 27 de agosto de 2011. A convocação foi divulgada em dezembro de 2010, pouco depois do XII Campeonato Brasileiro de Bocha.

Dados demonstram má-fé por parte dos dirigentes e técnicos responsáveis pela seletiva, pois, apesar de estar qualificada, com título de bicampeã brasileira, 11º no Campeonato Mundial de 2010 (entre 67 atletas) e 19º no ranking mundial (entre 93 atletas – melhor resultado já obtido por um brasileiro em minha classe / BC3), e prestes a alcançar vaga para as paraolimpíadas de 2012, fui subjugada em favor de atletas dos clubes (associações) onde técnicos da seleção mantém vínculo profissional permanente, sendo que um dos atletas, da técnica Ana Carolina Lemos, sequer obteve medalha alguma em competições oficiais, nos últimos três anos, incluindo regionais.

Foram realizadas insistentes tentativas de diálogos argumentando as possibilidades que seriam inutilizadas, porém, a comissão técnica foi taxativa em sua posição, e os dirigentes da ANDE se abstiveram de qualquer

intervenção, ambos cientes do prejuízo a mim e ao país, uma vez que ofendem as conquistas alcançadas, resultantes do trabalho desenvolvido juntamente com minha equipe na cidade de Uberlândia – MG, e restringe as possibilidades de vagas brasileiras nas paraolimpíadas de 2012.

É inaceitável que uma atleta brasileira em pleno estágio de preparo e ascensão, seja sabotada sem nenhuma argumentação fundamentada. Não podemos ter uma seleção forte se os responsáveis por sua composição não respeitam as metas e as conquistas dos atletas que trabalham e persistem em seus objetivos.

A questão é: os dirigentes e técnicos do Bocha Paraolímpico no Brasil estão trabalhando pelo desenvolvimento e sucesso da modalidade, ou estão preocupados somente com a elevação de seus nomes, seus clubes e suas regiões por meio do paradesporto?

Esse episódio não compromete somente as carreiras desportivas de todos nós, mas, principalmente, coloca em dúvida a seriedade e ética do paradesporto brasileiro, e em um momento de extrema importância para o desporto em nosso país, quando se vê investimentos, nunca antes realizados, a favor do esporte. Eu mesma sou um exemplo deste investimento, pois tenho conseguido me manter no esporte e melhorar meu nível de competitividade, graças ao apoio do programa bolsa-atleta, que usufruo desde sua implantação, e no momento em que seus frutos começam a brotar com mais intensidade, eu posso ser submergida pelos caprichos de quem deveria dar o suporte que nós atletas necessitamos.

Argumentos que questionam a seriedade do trabalho desenvolvido pelos administradores do Bocha Paraolímpico no Brasil:

1. Os critérios de convocação para a formação da seleção brasileira não foram divulgados oficialmente, e somente após várias insistências, do clube que represento (Associação dos Paraplégicos de Uberlândia – APARU) e minhas, nos foram descritos, informalmente, uma série de metodologias de avaliações não realizadas, observâncias de resultados (das quatro últimas competições) que visivelmente não foram

ponderados e uma série de critérios subjetivos e passivos de manipulação por interesses e opiniões pessoais.

2. O facilitador para minha exclusão, provavelmente, tenha sido o fato de eu haver solicitado advertência, ao técnico principal (Darlan França Júnior) e ao chefe de delegação (Arthur Cruz Gomes), para a auxiliar-técnica Ana Carolina Lemos, durante o Campeonato Mundial de 2010, por uma postura arrogante e anti-profissional de sua parte. Sempre fui uma atleta aplicada e disciplinada, não constando, em minhas quatro participações na Seleção Brasileira de Bocha, nada que ateste o contrario.

3. Os atletas convocados são todos de São Paulo, e o fato de a região sudeste (SP – localização dos atletas convocados) ter obtido ouro na disputa de duplas da classe BC3, é um ponto positivo para fortalecer a seleção na disputa internacional de pares da classe, porém não justifica que todos os três sejam de SP, pois somente dois dos atletas participaram destes jogos, os 6º e 9º colocados na categoria individual.

4. Existe uma alegação de se convocar dois atletas com paralisia cerebral (PC), porém, a nenhum atleta ou técnico foi mencionado essa intenção, (formar uma seleção com dois PCs na classe BC3), que é injustificada, visto que o regulamento internacional exige apenas um, e nos últimos campeonatos brasileiros (2008, 2009 e 2010), nenhum PC alcançou posição significativa (entre os quatro melhores). Constituindo assim em distinção por tipo de deficiência e não por qualificação, o que é um desrespeito a todos os atletas e ao próprio sistema paraolímpico, sendo que, além das sete vagas para os melhores pares, serão distribuídas também seis vagas paraolímpicas com base no desempenho individual dos atletas.

5. Além do ouro individual, conquistei, com outros dois atletas, prata nos jogos de pares, e também deveria ser considerado, o fato de a parceira,

que disputou em dupla comigo, ser iniciante e, até então, não possuir equipamento adequado.

6. Existem três vagas para nossa classe na seleção, e o resultado do Brasil em Pares é o que garante a vaga para o trio, nas paraolimpiadas, porém são apenas sete vagas e o Brasil se encontra em 12º, existe a possibilidade de elevação drástica, trabalhamos todos por isso, no entanto, caso o Brasil não se classifique nos Pares, há uma chance, até maior, de minha colocação no ranking individual garantir uma vaga para o Brasil, pois estou em sétimo para seis vagas. Os demais brasileiros de minha classe estão do 33º lugar para baixo, o que reduz suas chances individuais. Entre os dezoito atletas que estão acima de mim no ranking internacional, doze são de países pré-classificados, portanto não usufruem das vagas individuais.

7. Tenho me mantido entre os melhores atletas do Brasil, em minha classificação funcional, há seis anos, resultados comprovados pelo fato de ser constantemente contemplada pelo programa bolsa-atleta, desde sua implantação em 2005, sabendo-se que o critério fundamental para que o atleta seja beneficiável é estar entre os três melhores atletas nacionais, segundo o evento nacional oficial, ou o ranking.

Despeço na certeza de contar com sua integridade e bom senso, para intervir na busca da justa resolução deste impasse.

Respeitosamente,

Daniele Martins

@daninomundial tag: #DaniNoMundial

Mais informações no site: http://www.meninadoesporte.com/2011/03/caso-dani-no-mundial.html