Tetracampeão paraolímpico está sem patrocínio

Único atleta no mundo a conquistar quatro medalhas de ouro consecutivas em Paraolimpíadas, o judoca Antonio Tenório, de 40 anos, vive atualmente um drama que atinge a maioria dos competidores brasileiros: a falta de patrocínio. Sem ajuda, ele tem dificuldade para treinar e custear viagens. E 2011 é um ano importante pois Tenório irá disputar os Jogos Mundiais de Cegos, na Turquia, no próximo mês, além de se preparar para a Paraolimpíada de Londres-2012.

Nos últimos 12 anos, o judoca recebeu apoio financeiro do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD). Mas essa ajuda acabou este ano pois o órgão enfrenta problemas financeiros.

– Eu ainda tenho uma reserva que me garante treinar. Mas esse dinheiro uma hora vai acabar. Espero assinar novos contratos em breve. Sem apoio não dá para pensar em medalha em Londres – afirmou o atleta, que já foi tema do documentário “B1: Tenório em Pequim”, que contou com o IBDD como um dos realizadores.

Depois que perdeu o apoio do IBDD, Tenório não ficou parado e começou a correr atrás de novos patrocínios. Atualmente, o judoca negocia com as Loterias Caixa e recebeu proposta para integrar o grupo de atletas do Instituto Superar, entidade sem fins lucrativos criada em 2007 para apoiar o esporte paraolímpico no Brasil.

Tenório também recebeu convite do prefeito do Rio, Eduardo Paes, para fazer parte do Time Rio Paraolímpico. Ano passado, o munícipio, em parceria com o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), criou o Time Rio, grupo de 13 atletas olímpicos que recebem apoio para treinar visando aos Jogos Olímpicos de Londres-2012 e Rio-2016.

– A ideia é a de que eu vá para o Rio e desenvolva o trabalho até 2016. Estou esperando o prefeito terminar a elaboração do projeto para assinar – afirmou o judoca, que atualmente treina na Associação Desportiva Ateneu Mansor, em São José do Rio Preto (SP).

Tenório perdeu a visão do olho esquerdo aos 13 anos. Durante uma brincadeira, levou uma estilingada de semente de mamona. Seis anos depois, uma infecção e deslocamento de retina tiraram a visão do outro olho. A essa altura, ele já lutava judô – começou aos 7 anos – e era pai de duas crianças.

– Eu era bagunceiro e meu pai resolveu me colocar no judô. Depois que perdi a visão, tive de me recuperar rapidamente para sustentar toda a família. Até abri mão da carreira militar. Hoje, ainda não penso em aposentadoria pois me sinto um garoto – disse Tenório.

IBDD dá sua versão para fim do apoio

Superintendente do IBDD, Teresa Costa D’Amaral disse que a entidade foi o clube de Tenório desde sua fundação, há 12 anos. E que o órgão dava um apoio financeiro que, no início, era pequeno. Mas esse valor aumentou oito anos atrás quando a Petrobras começou a patrocinar o IBDD. Esse patrocínio, no entanto, durou até 2007, ano do Parapan do Rio de Janeiro.

– Somos uma ONG que vive de recursos próprios. Sem a ajuda da Petrobras, conseguimos aguentar até este ano, quando diversos contratos foram finalizados ou não foram renovados. Fomos obrigados a fazer um corte grande nas atividades. Então, infelizmente, tivemos de cancelar o apoio ao Antonio Tenório – afirmou Teresa.

Quem é
Antonio Tenório
Judoca paraolímpico

40 anos
Tem ele, que nasceu no dia 24/10/1970, em São Bernardo do Campo (SP).

Classe B1 (cego total)até 100 kg
É a categoria de Tenório, que já competiu nos pesos até 90 kg e até 86 kg, mas sempre na classe B1.

4 ouros paraolímpicos
Tenório venceu na categoria até 86 kg em Atlanta-1996; na categoria até 90 kg em Sydney-2000; e na categoria até 100 kg em Atenas-2004 e Pequim-2008.

4 conquistas importantes
Bronze no Mundial de Madri (ESP), em 1998, e no Mundial do Brasil, em 2001; prata no Mundial de Roma, em 2002; ouro no Parapan Rio-2007.

Classificação funcional no judô

Como é
O judô paraolímpico é uma modalidade exclusiva dos deficientes visuais e as regras são semelhantes às do judô convencional. Os atletas são divididos nas classes: B1, B2 e B3, em que a letra vem do inglês blind (cego). Homens e mulheres têm o mesmo parâmetro de classificação.

Classe B1 (cego total)
Judocas com nenhuma percepção luminosa em ambos os olhos até a percepção de luz, mas com incapacidade de reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância ou direção.

Classe B2
Lutadores que já têm a percepção de vultos. Da capacidade em reconhecer a forma de uma mão a qualquer distância até a acuidade visual 2/60 (moderada) ou campo visual inferior a 5 graus.

Classe B3
Os lutadores conseguem definir imagens. Acuidade visual é de 2/60 a 6/60 (visão sub-normal) ou campo visual entre 5 e 20 graus.

Fonte: Felipe Mendes — Lance